Há quatro anos, eu vivia a contar moedas no fim do mês.
Trabalhava o dia inteiro numa loja de roupa, no São Paulo, aqui em Luanda. Recebia pouco, chegava a casa exausta e, mesmo assim, nunca sobrava nada. Dependia do pai dos meus filhos para quase tudo — e isso pesava-me mais do que o cansaço.
O dia que mudou tudo foi quando o meu filho chegou da escola com um papel: 12 mil kwanzas para explicações. Eu prometi que ia resolver. Mas naquele momento tinha menos de 3 mil na conta.
Entrei no quarto, fechei a porta e senti vergonha de mim mesma. Foi nesse dia que decidi: eu precisava de uma coisa que fosse minha.
Já tinha tentado de tudo antes — roupa, cosméticos, acessórios. Nada durava. Faltava capital, sobrava concorrência. Acabava sempre a perder o pouco que punha.
O primeiro bolo no pote nasceu por acaso, no aniversário da minha prima. Chocolate, brigadeiro caseiro, pedaços de morango — em uns potes transparentes que tinha guardados, porque nem embalagem bonita eu tinha.
A minha tia provou e disse: "Tu tens noção de que as pessoas pagariam bem por isto?"
No dia seguinte pus uma foto no WhatsApp. Seis encomendas no mesmo dia, a 1.500 kwanzas cada. Na semana seguinte já entregava no bairro inteiro. Depois vieram os aniversários, os escritórios, os eventos.
Mas vou ser honesta: o início também teve potes estragados. Bolo que azedou no calor antes de chegar ao cliente. Cobertura que derreteu no caminho. Cada pote perdido era dinheiro meu a ir ao lixo — e a vergonha de entregar algo que não estava bom. Levei meses a perceber como conservar, que embalagem aguenta o trajeto, quanto tempo cada sabor dura no nosso clima.
Hoje tenho uma pequena produção em casa, trabalho com três ajudantes e vendo centenas de potes por mês. Em épocas festivas, passo dos 2 milhões de kwanzas. E aprendi que o que me travou no início não foi falta de talento — foi não ter ninguém a dizer-me como fazer. Foi por isso que juntei tudo neste guia.